Conferência da Dr.ª Luísa Monteiro

A 3 de março assinala-se o DIA MUNDIAL DA AUDIÇÃO, sob o alto patrocínio da Organização Mundial De Saúde (OMS). O lema escolhido para este ano, “Ouvir com cuidado para ouvir toda a vida”, pretende chamar a atenção para a preservação da capacidade auditiva ao longo da vida.  

No dia 12 de Março de 2022 a Associação Portuguesa de Otoneurologia, em conjunto com a Casa da Música, patrocinou uma iniciativa destinada ao grande público e inserida nas celebrações do Dia Mundial da Audição. Esta importante iniciativa teve lugar num local simbólico onde a Orquestra Sinfónica do Porto fez jus à efeméride, maravilhando o público ouvinte presente na magnífica Sala Suggia. Sem audição não é possível apreciar esta dimensão tão significativa da arte, universal e transversal a toda a humanidade e que é a audição. A Associação Portuguesa de Otoneurologia festeja este ano o seu vigésimo quinto aniversário e expressa uma pujança científica e um comprometimento social notável presente desde a sua fundação até ao presente.

Uma conferência de cerca de uma hora teve lugar precedendo o concerto, na sala Cybermúsica, centrada no tema da preservação da audição ao longo da vida, proferida por Luísa Monteiro, a convite da direção da APO. Visou a sensibilização do público para a importância que a audição tem para o ser humano e a sua interação com o mundo. Ouvimos com o cérebro, desde que ao longo das várias etapas da vida saibamos preservar e restabelecer a audição.

A OMS estima que em 2050 uma em cada quatro pessoas tenha uma perda auditiva que necessitará de cuidados. A perda auditiva tem um impacto negativo na qualidade de vida das pessoas afetadas que é diretamente proporcional ao grau de perda auditiva e tanto maior quanto mais cedo na vida ela se instala, dificultando a aprendizagem da fala, a comunicação, a integração social e escolar e familiar e o acesso ao mundo do trabalho.

Sabe-se que 60% das perdas de audição podem ser evitadas, quer através de medidas de saúde pública quer através de campanhas de sensibilização da população para evitar o traumatismo acústico  causado em ambiente de trabalho em profissões sujeitas a ruído industrial (fábricas, pistas de aviação, construção civil), tiros e explosões (caçadores, militares, carreira de tiro) e até em ambientes recreacionais com música muito alta (DJs, artistas rock e pop, frequentadores assíduos de concertos e discotecas) e até o uso indevido de fones com volumes de saída da música em intensidades superiores às regulamentadas.

Em Portugal em 2019 nasceram 86 579 crianças e embora todos sejam sujeitos a rastreio, só foi possível obter os resultados desse rastreio auditivo neonatal de 75,6% desta população (65 503 recém-nascidos), tendo sido identificadas 146 crianças com algum grau de perda auditiva e que foram devidamente encaminhados para reabilitação auditiva. No nosso país desconhece-se o número total de cidadãos que são portadores de algum grau de deficiência auditiva e que necessitam de intervenção.

Nos países desenvolvidos estão implementadas medidas de prevenção da surdez infantil tais como a vacinação dos jovens contra a rubéola e o seguimento e ensino das grávidas para evitar e detetar de doenças infeciosas que, ao ocorrerem na gravidez, podem provocar surdez no bebé: sífilis, toxoplasmose e citomegalovirus (CMV).

As infeções otológicas graves, os colesteatomas e doenças progressivas como a otosclerose podem também ser uma causa de perda auditiva, especialmente em países com difícil acesso a cuidados diferenciados de saúde. Meningites bacterianas, traumatismos cranianos, exposição a altos níveis de ruído ao longo da vida são algumas das causas de perda auditiva que surge em qualquer idade.

O envelhecimento traz consigo, geralmente, um grau progressivo de perda auditiva dos idosos que frequentemente é desvalorizada pelo próprio e pelas famílias, por ser progressiva e atingir sobretudo a inteligibilidade da fala. A surdez associada ao envelhecimento potencia a degradação das funções cognitivas, o isolamento social, a depressão e a demência e deverá estar na ordem do dia dos sistemas de saúde. É reconhecidamente o principal fator (corrigível) de demência, com uma importância mais significativa do que a hipertensão, a diabetes e a dislipidemia.

A identificação precoce e sistemática da perda de audição através de rastreios de base populacional já é feita em Portugal desde há décadas nos recém-nascidos, pretende-se que na idade pré-escolar também comece a ser feito sistematicamente para que na escola todas as crianças tenham as melhores condições para se integrarem e atingirem o sucesso académico.

Nas populações adultas sujeitas a ruído profissional os rastreios previstos na lei laboral são também periodicamente efetuados.  Resta a população vulnerável dos idosos que terá de ser alvo de campanhas de sensibilização das populações e rastreio sistemático a partir da idade da reforma.

O objetivo dos rastreios é o tratamento precoce com planos de reabilitação auditiva através de adaptação de próteses auditivas ou de cirurgias de restauração de audição, quando indicado, incluindo os Implantes Cocleares. Uma rede nacional de cuidados auditivos é desejável e inclui profissionais de saúde (Audiologistas, Otorrinolaringologistas, Terapeutas da Fala, Psicólogos, Enfermeiros), para a qual os pacientes possam ser referenciados pelos seus médicos de Medicina Geral e Familiar, de Pediatria e de Gerontologia.

Esta iniciativa permitiu a comunicação com o público e numerosos profissionais da área da saúde, estando presentes a Direção da APO representada pelo seu Presidente, Professor Dr. Nuno Trigueiros, o Presidente da Sociedade Portuguesa de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Professor Dr. Jorge Spratley e o seu Secretário-Geral, Dr. Delfim Tavares e, em representação, a Direção da Associação Portuguesa de Audiologia.

Professor Dr. Jorge Spratley, Dra. Luísa Monteiro, Professor Dr. Nuno Trigueiros